»

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Século IV aC

«Realmente, o homem mau apenas obra pensando em si mesmo, e quanto pior se torna, mais aumenta em si este vício; e assim se lhe aponta o nunca fazer nada fora do seu exclusivo interesse. O homem de bem, pelo contrário, apenas obra para fazer o bem, e quanto mais honrado se torna, tanto mais se consagra exclusivamente a fazer o bem, chegando ao ponto de esquecer o seu próprio interesse em se tratando dum amigo.»

- Aristóteles, "Ética a Nicómaco" (Liv IX, Cap.VII)

"Ama o teu semelhante como a ti mesmo", dirá quem?

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Palavras com raiz - 7. Lei



A palavra Lei radica no latino Lex. Os significados de Lex são vários: Moção proposta por magistrado perante o povo; projecto de lei; contrato; pacto; convenção; ordem; obrigação; cláusula; condição. Aparentado a lex, temos também lexis -palavra, expressão -, donde o nosso "léxico".

Por outro lado, lex também se relaciona, servindo-lhe de raiz (ou o inverso, não é pacífico) a lego - delegar ou transmitir a alguém o encargo de fazer alguma coisa; ou delegar. Ainda hoje, no português, nesse preciso sentido, temos o "legado", o "delegado" ou a "delegação". Também, ainda relativos a Lex, através do "lego", no latim havia o "legitimus" (fixado pela lei; legal), donde o nosso "legítimo"; o lector (leitor; aquele que lê), donde o nosso "leitor"; o lectio (escolher; eleição; texto; leitura), donde o nosso "leitura", mas também a nossa "eleição". Finalmente, citemos ainda "legio" - faculdade de escolher; legião - e, de legio, "legionarius" - legionário.

Não é difícil vislumbrar por detrás destas palavras a sociedade de Roma Antiga. Ora, nesta palavra, como em muitas coisas, os romanos aprenderam -e o aprender romano resultou em três fenómenos básicos: copiar, adulterar ou perverter -, com os gregos. Neste caso, no lego, foi quase cópia. Pois na língua de Homero, salvo seja, Legw também significa escolher, juntar, ler, orar, declarar, ordenar. O futuro de Legw é Lexw. E é de Legw que descende o célebre logos - logos, esse, que será de Heraclito, de Platão, que impregnará todo o pensamento grego e se fixará no Novo Testamento, um texto grego, no significado único de "Verbo de Deus". Segundo João: en arkhe hen logos kai ó logos; hen pros ton Theon - No principio estava o Logos; o Logos estava em Deus. Logos, no entanto, tanto pode significar palavra, como máxima, sentença, decisão, promessa, argumento, ordem, notícia, inteligência, razão de uma coisa, juízo, explicação, valor que se dá a uma coisa, entre outros. O cristianismo fixar-se-á no Verbo, calculo, porque pretendeu assim remontar ao "Dizer de Deus" no Génesis. Isto, no entanto, terá consequências. E nem sempre as desejadas. Às vezes, até as opostas ao espírito inicial.

Ora bem, como vimos num postal anterior, a regra pressupõe uma regência, um reino, uma ordem hierarquizada. Como vamos descobrindo aos poucos neste, a lei instaura um léxico. Ou seja, a regra pertence à ordem das coisas, dos costumes, do cosmos; a lei pertence à estrita ordem da palavra. É claro que num certo sentido também poderemos dizer que a lei é uma espécie de regra escrita. Sim, mas nesse caso, na melhor das hipóteses, será sempre uma interpretação estritamente humana das regras, uma leitura mais ou menos fiel do mapa régio.

Neste contexto, uma das diferenças fundamentais entre o universo grego e o universo cristão-romano, sendo ambos duas mundovisões regradas, é que os gregos colocam as próprias regras antes e acima da hierarquia divina, enquanto os cristãos, enquanto reféns do pensamento hebraico, pessoalizam a regra na lei declarada pelo próprio Deus Ditador único. Quer isto dizer que, para o pensamento grego as regras são absolutamente misteriosas, eternas e metacósmicas -mesmo o Deus-Rex (Zeus) tem que cumpri-las; ao passo que para o pensamento cristão Deus Absoluto dita as regras - as regras são as regras estabelecidas por Deus. Deus lega também, decretando (o livro sagrado é na essência um código jurídico), a forma de cumpri-las; a Igreja faz a mediação e advoga. Convém ainda acrescentar que os gregos viam o divino como uma monarquia e ser-lhes-ia, para não dizer repugnante, culturalmente inaceitável concebê-lo como uma tirania solipsa, lexomaníaca e pseudo-abstracta. Para um grego, Ihavé seria monstruoso - uma caótica quimera que amalgamaria numa única figura toda a casta de princípios contraditórios e antagónicos: a força, o poder, a justiça, a verdade, o amor, a morte, a técnica, a natureza criadora, a inteligência, o ódio, etc. Ora, se havia coisa de que os gregos desconfiavam era destes hibridismos, da mistura entre entidades que por princípio não coexistem pacificamente. Para Iahvé teriam, pois, um nome bem mais apropriado, tanto quanto detestado e temido: Caos. Nisso, Hesíodo chega a ser profético e concordante com o Genesis.

O desenlace lógico desta cultura da "lei" séculos adiante? Maquiavel. Se não há regra, a lei do mais forte refina-se no mais forte colocar-se acima e dispensado de quaisquer leis.
Ou dito de outro modo: sem regra, a lei reflecte apenas as fantasias e aleivosias do momento a ferver e de quem nele a dita. Desliga-se da própria justiça e nenhuma virtude consagra. Vale a pena, a este propósito, escutar Aristóteles, na sua Ética:
«Razão houve, pois, para dizer que se faz justo o homem quando executa acções justas, temperado quando executa acções de temperança, e que caso não se pratiquem actos deste género é impossível que alguém chegue alguma vez a ser virtuoso. Porém, o comum das gentes não pratica estas acções e, locupletando-se de vãs palavras, criam mais uma doutrina e imaginam, através deste método, que adquirem uma virtude. Isto é, por assim dizer, o mesmo que fazem os enfermos que escutam muito atentos os médicos, mas que não fazem nada do que estes lhes receitam; e, assim, como uns não podem ter o corpo são cuidando-se dessa maneira, também os outros não terão jamais sã a sua alma, filosofando desse modo.»
A virtude pressupõe um hábito, um costume, um ethos. Isto é, a virtude pressupõe uma regra. Bom é, por regra, agir bem e não apenas agir obrigado por uma lei. Porque em não sendo voluntário, não é livre; e não sendo livre, não é deliberado, não é intencional, logo não pode ser virtuoso. Se atentarmos na nossa sociedade actual, constatamos uma permanente enxurrada de leis, decretos, multas e burocracias de toda a espécie para coagir os cidadãos a determinados comportamentos, inibições ou desregramentos. É, nua e crua, uma sociedade de escravos - de escravos que acreditam estupidamente que a emancipação de toda a regra significa liberdade, quando apenas consolida a submissão inerme à tirania cada vez mais despótica, opressora e totalitária da lei (e de quem a pilota ou teledirige). Uma lei, sublinhe-se e recorde-se, evadida da regra.
Chamam progresso a um regresso: ao Caos.


PS: Sim, eu sei que a Igreja, através de Tomás de Aquino, tentou bravamente arrepiar caminho . Mas suspeito bem, e a história indicia-o, que tarde demais. Os platónicos do costume já avançavam de dentuça arreganhada, patas na matéria livre, cornos nas nuvens matemáticas e a ciência moderna em riste. Ora, para as cacofonias mundanas, o Maestro Cósmico está-se bem nas tintas.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

A Disfunção pública (rep)

Fala-se muito em desembaraçar o Estado do seu número excessivo de funcionários. Ainda há dias, na entrevista à RTP, o ministro das Finanças apregoava não sei quantas centenas de funcionários em rampa de lançamento para um qualquer limbo ou aterro sanitário.
É evidente que o Estado, na medida em que se tornou refém de seitas e receitas partidárias (e não só), descambou numa espécie de cancro maior da Nação. Brada aos céus de escândalo a quantidade de mamíferos que por lá se recreia e locupleta. Mas, a bem do rigor, convém que sejamos sérios na análise destes problemas. Por isso mesmo, compete que se diga, com toda a clareza, que se há algo excessivo no Estado Português, e há, esse excesso, essa demasia não reside certamente no número de funcionários. Pelo contrário, os funcionários, tal qual o país, são poucos para tamanho Estado. Relembro até que no tempo em que ainda existia um Império para administrar, o Estado era menos de um quinto do que é actualmente. O País diminuiu, mas o Estado aumentou. Significa que o Estado vive a parasitar a Nação. Essa, de resto, é uma lei antiga e fatal em toda a parte do mundo, só que entre nós ganhou foros de regabofe épico. Porém, repito, e por estranho que pareça, não são os funcionários do Estado os responsáveis por tão descomedida voragem. Acreditem, espantem-se, arrepiem-se, façam como entenderem, mas não são. Querem a demonstração? Aí vai.

Os funcionários do Estado, efectivamente, são poucos: os disfuncionários é que são muitos. Este detalhe é sistematicamente escamoteado. E não devia. Pelo contrário, devia constituir ponto de partida para toda e qualquer diagnóstico sério da epidemia. Como é bom de ver, existe a Função Pública e existe a Disfunção Pública. O país está todo ele disfuncional porque o peso da Disfunção Pública é esmagador em relação à sua congénere. Querem exemplos?
Na educação (que é igual à Saúde, à Justiça, etc): lá estão os funcionários - os professores e os contínuos; e lá estão os disfuncionários - os administradores, os burrocratas do ministérios, a pandilha das DREs, os sindicalistas, os inspectores da pevide, etc. Os professores - isto é, os funcionários - padecem concursos, suportam nomadizações, aturam os educandos das televisões e dos futebóis (e na hora de tocar píveas aos orçamento, vão de charola para o desemprego, ou nem de lá escapam); os disfuncionários ninguém sabe como ali vão parar, mas, uma vez lá catrafilados, uma coisa é sabida: nunca mais de lá saem. A missão dos disfuncionários é impedir que os funcionários funcionem. Quanto pior os funcionários funcionem, ou seja, quanto melhor disfuncionem, mais disfuncionários são precisos para analisar, perceber e engenhar soluções para a disfunção dos funcionários. Invariavelmente, os disfuncionários, após grandes marchas e serões forçados, autênticas maratonas de fazer corar um kafka, descobrem que há funcionários a mais. A coisa não está a disfuncionar como deveria e inicialmente era previsto (por eles, naturalmente). É preciso espiolhar, avaliar e descobrir quem teima em funcionar. E pô-lo no olho da rua. A disfunção Pública só tem e cumpre um dogma inexorável: o único problema, fonte de todos os problemas, é a escassez de disfuncionários e o excesso de funcionários. Essa lei única, soberana e absoluta deriva do facto de todo o disfuncionário ter sempre um familiar, amigo ou confrade cujo contributo é imprescindível para a Disfunção Pública. Toda a Disfunção Pública será sempre pouca. Tudo isto pode parecer absurdo, mas não é: é apenas perverso.
E a perversão imbrica na mentalidade assaz cavilosa mas típica do disfuncionário: está convencido que ele é que é o funcionário e que a Função Pública é uma disfunção. Traduzindo para o concreto: o Estado não existe para servir os contribuintes; os contribuintes é que existem para servir o Estado. A escola não serve para instruir, nem educar; os tribunais não existem para ministrar a justiça; os hospitais não estão lá para zelar pela saúde dos cidadãos. Não, tudo isto existe para os disfuncionários brincarem às reformas, às experiências, às cobaias com o dinheiro e o coiro alheios -isto é: para os disfuncionários perseguirem, torturarem e sanearem os funcionários. A seguir ao 25 de Abril, faziam-no em nome da higiene política, agora fazem-no em nome da higiene económica. Não tarda muito e será em nome da higiene sexual.
Por outro lado, logo que se apanha na Disfunção Pública, o disfuncionário adquire a firme convicção que não é condignamente tratado: o dever do Estado é promovê-lo e subsidiá-lo em todos os seus caprichos e mariscadas. E ele não está ali para outra coisa. Desata pois a disfuncionar com todas as suas forças. Sabe que quanto melhor disfuncionar, tanto maiores serão as suas chances. Quando não andam a perseguir, torturar e sanear funcionários, os disfuncionários conspiram, insidiam, manobram e intentam ultrapassar-se uns aos outros. O pior, invariavelmente, vence e adquire poderes, privilégios e prorrogativas acrescidos.
De tudo isto, com é facil de calcular, resulta um panorama deveras pitoresco:
Há todo um Estadão a cavalo na Nacinha. Compõem-no um número cada vez mais reduzido de funcionários e um número sempre crescente de disfuncionários. Os disfuncionários apregoam o "estado mínimo", ou seja, um número mínimo de funcionários que sustentem laboralmente um número máximo de disfuncionários. Bem como um número máximo de contribuintes que paguem ambos, claro está. A tarefa dos funcionários é canalisar as receitas dos contribuintes para os disfuncionários e carrear as directivas e receitas destes para o país. Não há qualquer exagero em dizer que os disfuncionários são parasitas compenetrados de todo o restante dispositivo: parasitam laboralmente os funcionários e parasitam monetariamente os contribuintes. Alcançamos assim a demonstração inicialmente requerida: na verdade, o Estado não tem funcionários a mais, até tem a menos: o que tem a mais, disparatadamente, é parasitas. Consequentemente, o que qualquer governo sério precisa de reduzir, com a máxima urgência, caso pretenda impedir o fatal colapso de tamanho rilhafoles e rilha-orçamentos, é, sem sombra de dúvida, o número de parasitas, não o de funcionários.
Cito um caso emblemático e verídico: fulano X trabalha no Instituto Y. Não tem mesmo feito outra coisa na vida nos últimos 25 anos. Desunha-se todos os dias executando as tarefas de três mais a chefe e a chefe da chefe. Atura, além do som ambiente do galinheiro, os ralhetes e os humores pré-menstruais (ou pós-menopáusicos) da hierarquia. Ciclicamente, ainda contempla, a cada fim-de-mês, a passagem do cometa Z, um assessor/avençado/ou lá o que é misterioso, que só ali passa para receber a renda choruda inerente à sua condição fantástica (uma entre várias, manantes de diversos institutos, direcções e empresas). Pois bem, o Instituto Y já se desembaraçou de diversos funcionários, mas os cometas, esses, prosseguem inexpugnáveis. Cometas, plural, digo bem, porque, entretanto, de um passaram a dois. Lá vão surgindo, todo o fim-de-mês. São aos milhares, às constelações por todo esse país desgraçado. Provenientes e ioiozantes das galáxias partidárias. Dos buracos negros clientelares. Vão acabar connosco se não acabarmos com eles.
Este postal é caótico e a raiar o alucinante, mas não me culpem nem refilem comigo. Limitei-me a transcrever o mais cruamente possível a realidade duma terra lançada aos bichos.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Civilização helénica

Os senhores tradutores dos evangelhos -que, recordo, foram originalmente escritos em grego e é assim que cultivo o hábito de os ler -, grafaram, regra geral, na terceira bem-aventurança qualquer coisa como:
«Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra».
Depois do Céu ficar prometido aos "pobres de espírito (ou em espírito)", estaria assim a Terra destinada aos "mansos".
Esta palavra "mansidão" atribuída a pessoas soa mal. Mansos são, quando o são, os bichos ou as alimárias, de colo, casa ou carga. Está bem que o homem agora já regrediu a macaco, mas, mesmo assim, "manso" sempre me soou, e soa, com injusteza. Além de áspero, é deselegante.
Dizer, então, "benévolo", "calmo", "sereno", "tranquilo" ou "brando" parece-me descrição muito mais apropriada a uma qualidade do carácter humano.
Até porque o texto no original diz isso mesmo: "makarioi oi praeis". É certo que "praos" também pode significar manso, mas porquê traduzir "manso" e não "sereno", "suave" ou "benévolo" em se referindo a humanos?
E depois "possuirão"... Ainda soa mais áspero que "mansos". Também não é isso que lá está. "Kleronoymhesoysin" - de kleronomia - não significa "possuir", mas "herdar", no sentido de "participar e partilhar herança". Este "possuirão" faz imenso sentido numa bíblia protestante, sobretudo calvinista, mas o escândalo é que acabo de consultar duas Bíblias católicas (e dos Franciscanos/Capuchos, imagine-se).

As palavras de Jesus Cristo, segundo Mateus, no meu modestíssimo entender, andarão mais próximas disto:
«Bem-aventurados (eternamente felizes) os benévolos porque herdarão a Terra».

O que é que isto tem a ver com judaísmo? Rigorosamente nada.

No entanto, há um autor que também recorre a este termo -"praos-, enquanto virtude do carácter humano, definindo-o nos seguintes moldes:
«O homem verdadeiramente sereno sabe não deixar turvar-se nem arrastar pelas paixões, mas indigna-se quando a razão assim o determina e pelo tempo que ela lhe ordene".
Viveu antes de Cristo, alguns séculos, e chamava-se Aristóteles. (Ética a Nicómaco, Livro IV, cap. V)
O Homem sereno também se indigna, ou irrita, mas por justas razões e com justa medida. Tal qual Jesus se indignou diante dos vendilhões do Templo.
Não deve é confundir-se nunca com os coléricos e os rancorosos. Dos quais Aristóteles, como foi sempre seu timbre, nos deixou uma descrição lapidar:
«Os de carácter colérico irritam-se prontamente contra pessoas - e em ocasiões - que o não merecem. É certo que também se apaziguam depressa e é o melhor que fazem. (...) Assim, os coléricos são dotados duma vivacidade excessiva: irritam-se por tudo e contra todos, donde lhes provém o nome que se lhes dá. Os homens rancorosos, todavia, são mais difíceis de governar: a sua irritação dura largo tempo porque sabem dominar os ímpetos do seu coração e não se apaziguam enquanto não tiverem devolvido o mal que lhes tenham feito. Só a vingança aplaca a sua cólera, porque apenas mediante ela o prazer substitui a pena que os devora. Mas enquanto o seu ressentimento não estiver satisfeito, carregam um peso que os oprime, e como não o manifestam às claras, ninguém pode curá-los através da persuasão. É necessário tempo para que a cólera se corroa a si mesma; tais espécimes são os mais insuportáveis dos homens para si próprios e para os seus amigos mais próximos.»

Judaico-cristão é um oximoro. Dos mais gritantes e dignos de indignação.

E agora que, decerto, já despertei a cólera duns e reavivei os rancores de outros, retiro-me. Tranquilamente.

Domingo, Novembro 08, 2009

À beira da sepultura



O método analógico ainda é o melhor. Imaginando a civilização como um automóvel, a ciência corresponderia ao acelerador, a religião ao travão e a filosofia ao volante. Numa civilização saudável, como num conjunto motorizado em perfeitas condições de funcionamento e operação, prevaleceria uma harmonia entre os diversos órgãos de condução. Sem acelerador, a máquina não avança; sem travão, despista-se seguramente; sem o volante, não viaja nem logra um destino. Da mesma forma, o excesso de acelerador, como o excesso de travão, ou o excesso de guinadas no volante não constituem forma fiável de condução. No momento em que a nossa civilização, segundo dizem, despontou, na Grécia Antiga, posso garantir, um conceito congregava as obsessões daquela boa gente: equilíbrio. Vinte e muitos séculos depois estamos nos antípodas do nosso próprio berço: a actual cultura equivale a um veículo sem volante, quase sem travões e com o acelerador a fundo. Mais que à beira do desastre, eu diria que nos encontramos à beira da sepultura.

Sábado, Novembro 07, 2009

Resfolegar




Mandei lavar o convés, remover as teias do tombadilho e desenferrujar os canhões. Com um bocado de sorte, ventania a preceito e vaga de feição, isto ainda navega!...

Entretanto, alguns leitores, por email, reincidiram numa questão que ciclicamente sobrevem: onde podem comprar o "Tratado da Besta"?
Bem, leitores, a resposta é simples: não podem. Não está à venda. Lê-se aqui de vez em quando, quando a telha mo consente ou as teias do acaso o permitem. Há privilégios (desprazeres, ou calafrios), risquem onde não interessar, absolutamente exclusivos aos leitores desta anacrónica página.

Quanto ao autor do referido tratado, anda a escrevê-lo há coisa de dez anos, mais dia menos dia, a pensá-lo há trinta e a vivê-lo há bastantes mais . Não sou exactamente eu, mas é quase como se fosse. Participa da minha inteligência mas vive arredado, a léguas, da minha liberdade. Eu chamo-lhe o "rapaz do andar de baixo". Entre nós existe um contrato vitalício: ele fornece-me o tempo, eu forneço-lhe a luz. Sem tempo não há luz; sem luz, a eternidade inteira não chegaria.

Sete fôlegos, dizem, tem o gato. E não voa.

PS: Fala-se muito em direitos de autor. É como tudo: devia falar-se, sobretudo, em deveres de autor. O de não se vender feito puta seria o principal de todos eles. Ocorreu-me esta bela ideia, anteontem, ao entrar no "Continente" e deparar logo de entrada com uma esquina onde competiam, em maquilhagens de lupanar, a última do Saramago e a última do Dan Brown. Se a alfabetização foi para isto, então, em verdade vos digo: abençoados os analfabetos!

Deixo-vos com esta verdadezinha final, para meditarem nas horas livres: quanto mais baixo desce o homem, mais inclinado e autorizado se sente a julgar e corrigir Deus.



Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Efeitos terminais II

«There are reports from Sweden of possible deaths linked to the H1N1 vaccine...»


Enquanto não começarem a pendurar uns quantos barões farmacêuticos e financeiros nos postes da electricidade isto não vai a lado nenhum. Ou melhor, vai. Mas vai para um sítio muito pouco recomendável.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Efeitos terminais

«The safety of Northern Ireland’s swine flu vaccination programme was called into question today by the parent of a young special needs pupil who ended up in hospital just hours after getting the jab.»
(...)
«The teenager fell seriously ill after receiving the injection, along with thousands of other pupils across Northern Ireland last Friday. He was later diagnosed with swine flu.»

Sábado, Outubro 24, 2009

No Tribunal de Caim

Já que tanto falam em Caim...

«É uma parábola antiga: ‘um dia, Deus, bom pastor, decidiu recuperar a ovelha perdida. Ponderou que estava na hora do céu festejar o regresso do filho pródigo. Já era tempo do remorso e o arrependimento, a provação e o desterro, terem feito o seu trabalho. Chamou Abel e disse-lhe: “Vai procurar teu irmão que eu ostracizei para longe do meu rosto. Perdoa-lhe e diz-lhe que volte, pois é tempo da alegria voltar a céu!” Abel assim fez. Desceu ao Vale da Morte, nos confins da Ignomínia, onde o Rosto de Deus nunca se debruça, e encontrou o irmão, de semblante carregado e esgar meditabundo, sentado num degrau, junto às portas da cidade. Abel exultou e, de olhos radiantes, exclamou: “Ah, meu irmão, que saudades eu já tinha! Alegra-te! É tempo de deixares cair esse luto que te cobre o rosto. O Senhor nosso Pai enviou-me e eu venho para te dizer que te perdoo. Estás perdoado, meu irmão! Agora levanta-te e vem comigo para que o nosso Pai te reveja e o céu celebre o teu regresso!...”
Donde estava, Caim fitou Abel. Fitou-o de muito longe, dum confim gelado e sombrio. Depois falou:
-“Passaram-se muitos anos. Ajuda-me a levantar, que já estou velho e trôpego.”
Abel acudiu, solícito. E quando ele se baixou para amparar o irmão, Caim, com arte refinada, matou-o, agora a sangue frio, pela segunda vez.’’

(...)

E nem sequer é o “homem lobo do homem”, como dizia o hirsuto Marx: é que, ao menos, os lobos têm a ética suficiente para não se comerem uns aos outros. Ao contrário dos homens.
Portanto, tendo em conta tudo o que, desde a História ao quotidiano, parece firmar-se como lógica recorrente e obsessiva, é-nos francamente permitido inferir uma primeira evidência, no que concerne às finalidades cleptocratas: independentemente de quais elas sejam, constata-se, com clareza e antes de tudo, que nunca se alteraram, mantêm-se as mesmas desde épocas imemoráveis. As razões e os motivos da violência – sendo que reside na violência o cerne emblemático da operação cleptocrata –, resistem intactos, incorruptíveis ao tempo e ao uso, quer um quer outro, ininterruptos. Apenas a violência aumentou, desenvolveu-se, exorbitou, numa espiral frenética e orgástica, festim macabro, espécie de cataclismo inesgotável –Antropomoto – em que as sucessivas e cada vez mais destruidoras réplicas outra coisa não repercutem que as ondas, sempre amplificadas, do primeiro golpe. Como se no mundo humano, que a toda a hora se inflama e recrudesce, o fratricídio primordial constituísse, obscuramente, a versão perversa mas efectiva de todos esses princípios originais e activantes que a filosofia ( e a própria ciência) inventariam: do “motor imóvel” Aristotélico ao Big-Bang astrofísico, sem esquecer o “dominó divino” do Mundo-máquina de Descartes. Quer dizer, é como se nesta maquinaria infernal em que, paulatina e inexoravelmente, se vai consubstanciando o mundo, fosse o sangue o combustível energético; e o gesto do fratricídio inicial, congregasse no mesmo acto a infâmia e a demiurgia. Simultaneamente, insinua-se e adivinha-se nesse mesmo mundo a resposta de Caim à maldição divina*:
-“De futuro, serás amaldiçoado pela terra, que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra”. – Sentencia-o Deus.
-“Eu, que não tenho lugar, desterrado e filho de despejado, vou construir o meu próprio lugar. Eu, a quem o sangue do meu irmão veda o cultivo da terra, vou cultivar o sangue do meu irmão.” – Parece ter sido, arrepiante, a resposta. Deveríamos entendê-la, pois vivemo-la na sua insofismável actualidade e presença. A raça de Caim é uma raça irascível e belicosa: “Matei um homem porque me feriu, e um rapaz porque me pisou –se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete.”, garante e prescreve o seu quadrineto. Nem o tempo, nem a história atenuarão a violência, ou abrandarão a cólera e o rancor.
De resto, como já anteriormente explicámos, o mito é intemporal: não refere propriamente um passado, feito e acabado, mas profere, veladamente, um ciclo intempestivo, perene. Aquilo que uma cronovisão botiqueira como a actual chama de “presente” e “futuro” não está imune nem impermeável ao mito. Longe disso. Por muitas barreiras e vedações que se projectem e erijam entre os momentos, na forma de horas, dias, meses, anos, gerações, séculos, por muito que se tente manter os seres ostracizados e aprisionados nessas celas estanques, nem uns nem outros –os momentos e os seres –, são domesticáveis ou encurraláveis a esse ponto. Tais baluartes e estrebarias não passam de ficções grosseiras e aleijadas, convenções utilitárias e mercantis que em nada revelam de autêntico. Manipulam, manobram, manifestam, em suma, ajustam-se e adaptam-se à “mão”, mas não ao espírito. O que quer que está, e sempre esteve, para lá desses embustes, provavelmente flui, sem intervalos nem retalhos, indiferente ao “antes” e ao “depois”, ao “agora” ou “antigamente”. Quiçá, na profundeza, o trajecto de cada existência, mais que um sucesso separado e autónomo, antes traduz um re-viver eterno, uma restauração do ser enquanto apuramento, em suma: uma analépsia pela catarse. Essa seria a dimensão trágica da existência, que os antigos percebiam claramente. E não podia podia estar mais longínqua da actual, tecnoeficiente, cinemática, onde a amnésia e a hibridação imperam. Não obstante, quem olhar sem segundas intenções, lobrigará que detrás dum pseudo-progresso em permanente remodelação e reinvenção é, ainda e sempre, Caim que opera. Apenas a multiplicação se altera, pela mera aceleração: “setenta vezes sete”, ou “setecentos vezes setenta”, ou “sete mil vezes setecentos”, a operação nunca mais pára, numa exorbitância sem fim, numa conta sempre a levedar, com juros e moras. Porque tanto quanto irascível e belicosa, a raça de Caim é uma raça de cobradores. No acto de matar e roubar é também uma forma de indemnização que se consuma: a desforra duma ofensa, prejuízo, carência ou inferioridade. Da mesma forma que uma misofratria que se resolve. Daí ao Blobglob, quintessência daquele homem que não deve nada à vida e ao cosmos, mas a quem tudo e todos devem, com hipoteca e prémio, vai um caminho lógico e uma linhagem insigne.
Essa convicção sublime, também ela incorruptível à experiência e aos tempos, gera frutos providenciais. O primeiro deles é de índole psicológica: o cleptomaníaco (independentemente do grau hierárquico que ocupa na cleptocracia) convence-se que não rouba, apenas cobra. A sua parte, entretanto, deixa de ser a “parte confiada pelo destino” para passar a ser a quantidade que ele tem capacidade de cobrar. Quanto ao alcance e regras da cobrança, são definidos através de contratos, onde ficam consignados a força e a justificação de cada qual. Em suma: estabelece-se o quinhão respectivo. Aparentemente, o contrato estipula a força; mas, efectivamente, é na verdade o contrário que se passa. A evolução histórica comprova-o e concretiza-o.»

- in "O Tratado da Besta" (Helionecrose e Hegemonia - Iª Parte: Ocídio e Odisseia)


Caim construiu cidades para nelas cultivar Tribunais; e fez da sua própria alma uma cidade, que, ano após ano, com energia de formiga e astúcias de aranha, labirinta e fortifica. Nesses tribunais, - no açougue que funciona no rés-do-chão, mais precisamente-, toda a carnificina tem como fulcral intuito o mero ensaio para um único, exclusivo e imarcescível réu: Deus.

"Se, no primeiro dia, expulsaste o meu pai do Teu Paraíso, eu, no último, hei-de expulsar-te do meu Inferno!"
Caim não esquece. Nem perdoa.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Super-desnível

E ainda dizem que não prestamos, que somos uns pelintras!...

Pois vamos em 5º, a nível mundial, e apenas suplantados por Hong-Kong, Singapura e os dois Estados Unidos (o giga e o nano). Escandinabos, roei-vos de inveja!

Deve ser por isso que temos cada vez menos nível: estamos a apostar tudo no super-desnível. E diabos nos levem se não estamos a conseguir, com uma perna às costas! Já somos dos melhores, entre os piores.

Recapitulemos então os três famosos Dês da cegada abrileira: Descolonização, foi a debandada que se viu; Democracia, é o delapidanço que se vê; Desenvolvimento, há-de ainda desmesurar-se no desnível - o super-desnível - que se verá.

Eles vivem.