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Segunda-feira, Julho 13, 2009

Da Lacoste ao Low-cost

«Paulo Portas promete campanha eleitoral "low-cost"». Nada de Lacostes, portanto.

Mas notem bem a nítida fobia à palavra "barato". O tipo nem a consegue pronunciar. Uma campanha barata era pindérica, pelintra -horror dos horrores! - pobretanas. Assim, "low-cost" até é chique. Montes de chique. Lots of it!

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Mecânicos genolálicos

«Falas de civilização, e de não dever ser.
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos os que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!»

- Fernando Pessoa (disfarçado de Alberto Caeiro)


PS: Ando com severos e bizarros problemas no acesso à internet. Pelo que não consigo sequer responder nas caixas de comentários como gostaria e alguns apontamentos merecem. A todos peço desculpa.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Venha a nós


Reparem bem, na foto acima, do interior da Catedral de Chartres, no tamanho das bancadas dos fiéis. Reparem, sobretudo, na proporção em relação ao Todo. Agora, na foto que se segue, referente a uma catedral actual (a de Fátima), confiram essa mesma proporção.


Sem tempo para me alongar muito - por ora - em considerações simbólicas, deixem que refira apenas este crudelíssimo detalhe:
O espaço reservado ao homem, em Chartres, é mínimo; ao Divino, máximo. Em Fátima, na nova catedral da Santíssima Trindade passa-se exactamente o contrário: é o espaço de Deus que é minimalista. Direi mesmo que, Deus, para lá entrar, passe a alegoria, no mínimo, tem que se pôr de cócoras, de gatas, ou de joelhos.
O que eu mais aprecio numa igreja é exactamente aquilo que mais admiro, com terror e piedade, em Jesus Cristo: o Silêncio. De todas as parábolas, quanto a mim, foi a suprema. Ora, nem queiram comparar a qualidade do silêncio numa catedral medieval com a destes salões de congressos de agora!
E notem só mais esta minudência pela qual peço já perdão a todos os profissionais da fé e da salvação: os medievais, que tinham muito menos coisas, meios, posses e possibilidades que nós (já não falando que eram imensamente menos evoluídos e progredidos), eram capazes -uma cidade inteira, num esforço colossal e anónimo - de oferecer uma catedral a Deus. Porque é isso que um templo sagrado significa: uma oferta nossa ao Altíssimo. Nós, estes portentos actuais, em contrapartida, arrotadores de postas ao desbarato, fanfarrões das dúzias, nós que já temos tudo e mais alguma coisa e se nos falta o gadget mais recente para o último modelo de coisa nenhuma aqui d'el rei que não se admite, não se suporta e é crime de lesa-conforto, nós, em suma, já não damos nada que se veja (quanto mais digno de Deus ver). Damos - melhor: os padres que dêem, eles é que lá moram! - salões de congressos ou pavilhões gimno-desfrutáveis e é um pau, e já ficamos a chorar o balúrdio esbugalhado. E, todavia, nada de tibiezas: pedimos tudo. A Deus, ao diabo, ao banco, à lotaria, à ciência, à bruxa, ao Cunha e até ao porteiro do ministério. Pedimos tudo e nada nos contenta. Nada nos enche nem preenche ou parece bastante. Merecemos o quê?
Quanto ao peditório peregrino do senhor Papa, cumpre-me dizer o seguinte: para esse, já dei. E, quanto a Deus, nem uma cadeira digna para Ele se sentar Sua Santidade lhe oferece e, em troca, já reclama e urde por todo um paraíso Terreal...?! É obra.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Bubble Gun




O artigo já está online. E está a dar que falar.

«The Great American Bubble Machine»

E o mais interessante, claro sinal de que o pontapé lhes chegou às partes sensíveis, foi a reacção:

«But much more shocking than Mr Taibbi's well-crafted paragraphs about Goldman Sachs engineering every great market event since the Great Depression, and running the US Government, was the reaction by the normally tight-lipped firm.

Instead of ignoring an article that accused it of rigging the booms in internet stocks, oil prices and mortgage-backed bonds alongside a cover of the Jonas Brothers, Goldman went running to Wall Street's favourite tabloid, the New York Post, to defend itself.

"(Mr Taibbi's) story is an hysterical compilation of conspiracy theories," a furious Goldman spokesman, Lucas Van Praag, emailed the Post

Domingo, Julho 05, 2009

O Homem desatado




«Maldito seja o que me desatou os pés cruelmente amarrados e me salvou da morte! Em nada te estou grato; se tivesse morrido nessa altura, não teria provocado tais dores, aos meus amigos e a mim!»

- Sófocles, "Édipo Rei"

Édipo significa qualquer coisa como "pés atados" e, com isso, significa-nos também a todos nós, humanos. De facto, nascemos todos de pés atados. Não escolhemos a hora, não escolhemos a família, não escolhemos a época, não escolhemos o país, não escolhemos, em suma, nada daquilo que principiamos por ser. Deve ser por isso que o acto com que inauguramos a existência é chorar. Num ritual que, bem medidas as coisas, constitui o nosso primeiro acto de lucidez e, na generalidade dos casos, o último. Porque depois entramos no reino da fantasia - na fantasia de que, graças ao nosso desembaraço de mãos, vamos conseguir desatar os pés. Ora, é nessa fantasia, nessa prestidigitação presuntiva, promovida nos últimos séculos a delírio galopante, que reside o cerne da tragédia. E não apenas a tragédia enquanto arte teatral, mas sobretudo a tragédia enquanto vida.
O homem moderno é, essencialmente, um homem desatado. Inflou-se na fantasia que a medievalidade o atava de pés e mãos e tratou de desatar-se. Desatou, pois, em seu alucinado entender, a ser homem. A ser absolutamente homem. Homem absoluto e resoluto.
As palavras há que degustá-las e "absoluto" - do latim "ab-solvo" (separar, desligar, desembaraçar, absolver, perdoar, libertar, etc) significa precisamente esse estado de desatamento, de absolvição e desembaraço. Como "resoluto" - do latim "re-solvo" (desatar, desamarrar, dissolver, soltar, amolecer, distrair, divertir, romper, compensar), não apenas vai no mesmo sentido, como reforça e enriquece. O homem absoluto não deve nada a ninguém e o universo tudo lhe deve. Donde resulta o individuozinho egofórico do nosso tempo, simultaneamente cheio de nada porque a transbordar de si, a quem todos devem e ninguém paga, pelo menos e pelos vistos, o suficiente. Não espanta, assim, que este homem desembaraçado daquilo que lhe atava os pés - ou seja, princípios e fins seus anteriores e superiores -, se arvorasse e devotasse, por sua exclusiva e alta recreação, à principalidade e à finança, que é como quem diz, à promoção dele próprio a princípio e fonte de todos os princípios (na forma de lei); e à redução de todos os fins a uma fórmula meramente material, manipulável, açambarcável e intimamente conveniente ou tributável à precedente. E admira ainda menos que o corolário lógico duma tal besta desenfreada culmine naquele que congrega e acumula em si, à maneira de nova deidade mundana e mecânica, o princípio e o fim: o príncipe financeiro. Daí que, com inegável mérito, o expoente máximo da idade Moderna, bem acima de Descartes, Voltaires, Goethes, Beethovens, Richelieus, Fredericos ou Napoleões congéneres, pertença aos Rothschilds. Na exacta medida em que protagonizam essa amálgama triunfante de Maquiavel e plutofrenia; na esplêndida dimensão em que decantam essa nova aristocracia não já baseada no sangue mas no dinheiro, isto é, não já fundada e símbolo orgânico da reprodução natural, mas montada, esquemática e matematicamente, na desenfreada reprodução e proliferação artificiais - com a inerente usurpação do núcleo social família pelo nódulo empresa. Nem, tão pouco, já atada ao que quer que seja, passado ou futuro, mas desembaraçada de todos e quaisquer escrúpulos, deveres, responsabilidades, encargos ou cargas simbólicas.
Aristóteles, na idade clássica, e - às cavalitas dele - Tomás de Aquino, na medieval, haviam zurzido severamente a usura. "O dinheiro não faz filhos", servira de ilustração para o atestado de "desnaturação" e consequente anátema à actividade usurária. O que a idade Moderna veio demonstrar foi algo substancialmente diverso: talvez o dinheiro não fizesse filhos, mas, doravante, passava seguramente a fabricar, da noite para o dia, barões, grão-duques, príncipes, reis, imperadores e até ministros e presidentes. Ah, e claro está, semideuses acima de toda essa escumalha avulsa, súbita e alquimicamente, transmutada em novaristocracia, porque, decerto por magia, oriundos duma alfurja ainda mais abaixo: os Rothschilds.

Desengane-se, todavia, quem pensa que este é um problema e uma patologia exclusivamente modernos. Melhor dizendo: desiluda-se quem se dá à conveniência deveras repousante para a inteligência de julgar que a Idade Moderna irrompeu por geração espontânea. O protagonismo do antropóide auto-proclamado racional já vinha dos sofistas, tanto quanto o maquiavelismo avant la lettre já inquietava os trágicos. Protágoras com o seu "homem medida de todas as coisas" exemplifica o primeiro caso; Sófocles, no Filoctetes inteiro e, em boa parte, na Antígona, ilustra o segundo. E quanto à medievalidade cristã o contributo, então, foi de peso a raiar o esmagador: podemos mesmo dizer que a Idade Média se divide não em dois (Alta e Baixa) mas em três períodos: Alta, Baixa e Baixíssima (ou Abaixo de Cão). E durou não mil, mas mil e trezentos anos (mais coisa menos coisa), já que começou com a Queda do Império Romano e terminou com a Queda da Monarquia Francesa, vulgo Ancient Régime.
Cito apenas dois episódios que me parecem especialmente desedificantes.
1. Quando, no século XI, a pedido duns quaisquer monges de Bec, Anselmo de Cantuária (Santo Anselmo, para os católicos), tratou de elaborar "um modelo de meditação sobre a existência e a essência de Deus, em que tudo fosse provado pela razão", pressupunha uma espécie de "razão explicativa e fortificadora da fé", servindo esta de fundamento àquela. Mas, na verdade, estava a abrir a tampa duma certa caixa pouco recomendável. Anselmo, de facto, manifestava uma fé quase ilimitada na razão, na medida em que a razão conseguia pensar o ilimitado (e, em certo sentido, o impensável), tanto quanto definir o insondável, isto é, Deus. Daí à razão com uma fé ilimitada nela própria (pois já que conseguia pensar o infinito, a divindade, o que é que a impedia de pensar-se, ela própria, uma divindade?), foi um quase instante. Pelo que, de certa forma e ainda que involuntariamente, Anselmo de Cantuária acabou por se prefigurar como um proto-Iluminista.
2. Quando, na senda do mesmo Anselmo, e contra a tese tradicional, o Proto-Renascimento de Chartres concebeu o "Humanismo", ou seja, a crença no homem como objecto e centro da criação - aquele para quem o mundo fora realizado e estava, por assim dizer, ab ovo, prometido. Dispenso-me de esmiuçar onde este tipo de fantasia conduziu, bem como as diversas peregrinações atrozes, auto-promoções obscenas e desumanizações em side-car. O certo é que o seu contributo para aquele húmus mental que alcança um dos zénites mais fulgurantes naquela célebre frase "todos os animais são iguais, mas há uns mais iguais que outros" nunca será de menosprezar.

Resumindo, a Idade Moderna (ou Baixíssima Idade Média, como considero mais justo chamar-se-lhe), nos seus inúmeros e frenéticos teorizadores, magarefes e videntes, conseguiu desenvolver a ideia e, nela, o projecto do perfeito e acabado filho-da-puta. Mas, honra lhes seja tributada e justiça lhes seja feita, só mesmo os Rothschild tiveram a capacidade financeira para o levarem a cabo. Finança, de resto, significa isso mesmo: levar a um fim. A um fim que, ninguém duvide, um dia será o nosso. Talvez então, por um abissal e terminal rasgo de lucidez, se nos revele o horror em que vagámos desatados e, como Édipo, nosso arquétipo ancestral, gastas as lágrimas genuínas por alturas do nascimento, usemos as mãos -essas mãos malditas com que nos desatámos! - para arrancar os olhos com que, toda a vida, nos cegaram. E também por nojo imenso, certamente. De nós proprios.
O homem absoluto e resoluto é também, tudo bem somado, o homem dissoluto. Começou por acreditar que o mundo lhe pertencia, lhe era devido e destinado e acaba dissolvido nele. Desfeito do corpo e liquefeito da mente, feito narciso a diluir-se num charco. O charco da sua própria, atávica, crónica e incurável estupidez.


PS: Uma ironia final. Como se diz desatamento em grego? - Analysis. Donde provém a nossa, em português, "análise". Na língua de Homero, o verbo ana-lyw significa desligar, dissolver, separar, libertar, analisar, abolir, etc. O que, curiosamente, não deixa de vir ao encontro da nossa investigação anterior: o homem desatado é igualmente o homem em perpétua análise. Uma análise que se processa, em larga medida, pela dissecação. Um homem que se dissolve auto-dissecando-se. Ou melhor: que se auto-analisa por vivissecção.




Sexta-feira, Julho 03, 2009

Menos um português de conveniência

«Maria João Pires renuncia à nacionalidade portuguesa» - Para se dedicar à hotelaria no Brasil, acrescenta a notícia.

Por mim, pode renunciar à nacionalidade, pode dedicar-se à hotelaria, pode até votar-se à prostituição, à ginástica rítima ou à cabala de corridas, é-me rigorosamente indiferente. Direi mais, se isso significar que vai deixar de molestar o pobre do Mozart, tal até se me torna deveras simpático, senão mesmo galvanizante.

Caso contrário, que o Gould e o Rubinstein nos acudam.

Quem?...

Tive hoje o privilégio de ler no Destak uma notícia que respondia pelo seguinte título:
«Pais não alertam filhos para os perigos da Internet».

De imediato ocorreu-me a seguinte diálogo, repetido vezes sem conta, por alma e graça dum daqueles inquéritos de rua :

Repórter - Alerta os seus filhos para os perigos da Internet?
Entrevistado - Quem?...

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Caos-surfers


«Goldman Sachs behind every market crash since 1920s»


E depois deste aperitivo, passem à entrada:

«How Goldman Sachs took over the world»


Quanto ao prato principal, podem escolher entre o Goldman Sachs e o JP Morgan. Duas formas particularmente picantes de confeccionar caos, dizem.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Viagem ao Mundo da Droga - III. (The Rothschilds Exposed 3/3)

Viagem ao Mundo da Droga - II. (The Rothschilds Exposed 2/3)

Viagem ao Mundo da Droga - I. (The Rothschilds Exposed)

Documentário sério e bastante pedagógico. Especialmente para os fetichistas do mercado.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Marabuntas, ou Dos Arrastinhos a bem da nacinha.

Transcrevo directamente dum Blogue de esquerda, para que não se ponham com as esquisitices do costume (que é inventona de neo-nazis, fassistas, xenófobos e mais não sei quê):

«Ao que parece, o novo e mastodôntico centro comercial Dolce Vita Tejo tem servido de palco a alguns coloridos assaltos, na modalidade massiva a que os brasileiros chamam "arrastão". Além de calmamente terem mudado de roupa e de sapatos (assim numa espécie de "querido, mudei o gatuno"), os participantes na última marcha terão ainda limpo a loja da Staples. Espero que isto se insira já numa campanha de regresso às aulas.»

Agora, topem só esta delícia que se segue:
(Do ACIDI, Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, IP)


COMUNICADO

Têm estado a ser divulgadas, durante o dia de hoje, por alguns órgãos de comunicação social, notícias referentes a pretensos “Arrastões” no Centro Comercial DOLCE VITA TEJO, na Amadora, protagonizados por “gangs” - grupos numerosos constituído por «jovens negros».

A Comissão Permanente da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) tomou entretanto conhecimento, junto da Direcção do Centro Comercial Dolce Vita Tejo bem como dos Serviços de Segurança Pública da não verificação dos factos acima referidos.

A Comissão Permanente da CICDR solicita, assim, a todos profissionais da Comunicação Social portuguesa a maior atenção ao tratamento a dar a estas notícias, atenta a especial responsabilidade dos órgãos de comunicação social no tratamento rigoroso da informação.

Lisboa, 19 de Junho de 2009»



Afinal, houve ou não houve arrastão? É claro que os últimos a quererem reconhecê-lo, por motivos óbvios, serão a Administração do tal Amontoado Comercial e os Serviços de Segurança Pública. Uns porque aquilo lhes afasta a clientela; outros porque aquilo lhes revela a incúria. E o regime, em peso, por trás duns e ao volante doutros, porque aquilo lhe atesta a estado de desmemória e desarranjo mental típicos da fase terminal do alzheimer. Na verdade, se já está praticamente insensível aos arrastões é por uma razão muito simples: porque a sua prostração o tornou completamente dependente da arrastadeira.

PS: Entretanto, atentem só na seita de parasitas sociais que assenta praça e tacho nestes Institutos (melhor seria chamar-lhes "prinstitutos") da treta, como este ACIDI. Quem é que paga os salários desta choldraboldra, deste súcia de doutores, assessores e secretárias aos molhos, mais os técnicos de 1ª, 2ª e 3ª inutilidade pública e cunha encartada às carradas? Se isto não é também um arrastão e dos permanentes, vou ali e já venho.

Sábado, Junho 27, 2009

Repórter Flash - Entrevista com o Rato Mickey (Part. 1)




- Rato Mickey, preferes que te chamem Rato Mickey ou Mickey Mouse?

- Prefiro Mickey Mouse. O que significa “rato?” tenho que ir ver ao google. Espero que lá conste, senão ainda vou ter que comprar um dicionário.

- Mickey Mouse, porque é que vai aos arames quando chamam Pateta ao Pateta?

- Bem vê: é um insulto. O Pateta chama-se Goofy. Fy-fy, prós amigos. Chamar Pateta ao Pateta é acintoso. Aliás, toda a Língua Portuguesa é acintosa. Os portugueses, dum modo geral, são acintosos, excepto quando estão calados e obedientes.

- Mickey, como é que podemos argumentar?

- É simples. Como sabe, existe uma camada superficial da atmosfera chamada noosfera. Esta noosfera está, toda ela, envolta numa fina e hipersensível película super-inflaccionada...

-Uma fina e hipersensível película super-inflaccionada?...

- Sim. O meu ego. Argumentar é dizer o que nos der na real gana, desde que não fira, belisque ou interfira negativamente com o invólucro da noosfera.

- E se, ainda que inadvertidamente, interferir?

- Faço beicinho, tenho uma birra e rebolo no teclado. Espol... Espro...esplo...

- Espoldrinha-se?

-Isso, Isso! Vê como a Língua Portuguesa é acintosa. Repare em inglês: “to wallow”. Note a delicadeza do verbo, o semi-sussurro palatal das sílabas. Poucas sílabas, como convém. Se bem que o meu caso até é mais “to tumble in the dust”. Que é quase um poema, como pode ver. Pois, eu tumblo in the dust of the teclado. Com imense gravity.

Mickey, é verdade que –nas palavras de mestre Almada – você especula e inocula os concubinos?

- Sim. Sou um intelectual histriónico que gosta de dar nas vistas e chamar as atenções. Penso em regime de concubinato geral.

- Fale-nos na sua já famosa “procura da verdade”.

- Segundas quartas e sextas, vai-se pela direita (é a via Cat); terças,quintas e sábados, vai-se pela esquerda (é a via Prot).

- E aos domingos?

- Como sabe, para atrair papalvos cat convém dizer que o Papa tem a verdade. De modo que, aos domingos, vai-se à missa com o fato de ver a Verdade.

- Mas se o Papa tem a verdade, fará algum sentido procurá-la? Se já sabemos onde ela está, o melhor não será, em vez de perder tempo com buscas, ir logo a Roma em romaria, em peregrinação, ou, para os laicos, ateus e metateus, em excursão organizada (package tours, com estadia pequeno-almoço e depilação incluída)?

- A populaça, sim. As elites, quer dizer, eu e o Pateta, digo, o Fy-fy, não. Temos uma linha directa para o Papa. Por telepatia - ou telepapatia, melhor dizendo. O Fy também possui uma mesa de pé-de-galo através da qual comunica com Darwin.

- Uma mesa de pé-de-galo!?, mas isso é científico?...

- Absolutamente. Funciona às mil maravilhas. Há até uma empresa dum judeu americano, com know-how de Passos Ferreira, que está a desenvolver um modelo portátil, desdobrável e transportável numa mochila. Não admira: o mercado está sequioso. O Fy-fy, além de sequioso, está faminto. Não vê hora de receber a sua tele-mesa, para poder conferenciar em ambiente camping.

- Significa exactamente o quê, esse “ambiente camping”?...

- Em cima das árvores. Faz todo o sentido. Assim como Newton descobriu as teorias dele observando uma árvore que deixava cair os frutos, o Darwin aperfeiçoou e refinou as suas trepando e pernoitando no carvalho que tinha no quintal. Foi assim que conseguiu recuar às origens mais remotas...

- Do Homem?

- Não, da mesa pé-de-galo!... Os nossos antepassados falavam directamente nas árvores. Ainda não tinham desenvolvido a tecnologia de carpintaria e mobiliário. Aristóteles, segundo consegui apreender na Wikipédia, explica estas coisas: chama-se o “acto” e a “potência”. A árvore era uma mesa em potência; a mesa é uma árvore em acto. Também se pode transpor para a espécie humana, conforme confidenciou o Darwin ao Pateta, digo Fy-fy: o macaco era o homem em potência; nós somos macacos em acção.

- Então, por essa ordem de ideias, o homem é o macaco realizado, ou o perfeito macaco?

- Sim, e o macaco é o homem imperfeito ou por realizar. Pode - e deve - ser também transposto para a sociedade.

- Fascinante! E dá qualquer coisa como quê?...

- Então, é óbvio: os macacos realizados ou perfeitos macacos são as elites; os homens imperfeitos e por realizar são a chamada populaça. Na terminologia darwinista, ou como diria o Fy-Fy, macacos realizados equivale a macacos desenvolvidos e homens imperfeitos corresponde a homens inaptos.

- Portanto, no seu mundo ideal os homens imperfeitos (ou inaptos) devem ser dirigidos, apascentados e supervisionados pelos perfeitos (ou desenvolvidos) macacos ?...

- Exactamente.

- E como é que distinguem os perfeitos macacos dos homens imperfeitos?

- Objectivamente, pela conta bancária; subjectivamente, pelo meu peremptório e inapelável veredicto.

- Isso significa que o seu pensamento consegue a acrobacia rara de ir da fantasia à sentença sem passar sequer pela opinião?...

- Pois. Mas faço ainda melhor: vou da intuição à tese sem sequer beirar a hipótese, nem, tão pouco, dar cavaco à reflexão. A verdade para mim é um instinto. Um instintuto, melhor dizendo. Brota-me como uma gana. Um magma. Um géiser! Para ser franco, excito-me com um assunto, roço-me nele e entorno-me.

- Entorna-se?

- Sim, nada de metafísicas. Nenhuma dúvida ou meditação: basta pensar no nome do assunto e zás, instantaneamente, segrego uma profecia completa acerca, uma certeza sólida a toda a prova. Estou até pensar em registar a patente. Vou chamar-lhe o “Método Cartes do Mickey Mouse”.

- Método Cartes?

- Isso mesmo. Trata-se, como o próprio nome indica, do contrário do Método Descartes. É só fazer ao René como o Marx fez ao Hegel: virá-lo de cabeça para baixo. Assim, em vez da dúvida metódica, proponho e pratico a certeza sistemática. Se me ocorre ao pensamento só pode ser absolutamente verdadeiro e indubitável. E depois, em vez de partir do conceito simples para o complexo, é reduzir qualquer problema complexo ao conceito simples mais próximo – o primeiro que me ocorra.

- Que geralmente é sempre o mesmo, não é? Aquela dicotomia cat/prot, que tanto fetiche e volúpia lhe parece causar...

- Evidentemente. A verdade, ao contrário da mentira que é múltipla, é única. Os portugueses não compreendem isto porque padecem duma grande incapacidade de abstracção. Não conseguem abstrair-se. Uma desgraça de gente!

- Não conseguem abstrair-se exactamente de quê, Mickey?...

- Da realidade. Ao contrário de mim, que consigo abstrair-me de ambos, da realidade e dos portugueses, de modo a sintetizar a verdade.

- Portanto, é abstraindo-se deles que melhor os conhece, define e converte em axiomas instantâneos?

- Pois claro. Outro preceito essencial do meu método Cartes: em vez de procurar abstrair-me dos meu preconceitos, idolatro-os e danço à volta deles até entrar em transe extático. Aí, atingido esse patamar sobrenatural, alcançado o estado de completa abstracção da realidade, da cultura, da história e, nec plus ultra, de qualquer pudor intelectual, experimento finalmente a verdade na sua plenitude núcega e proteica. Banho-me, à uma, na luz do génesis e do apocalipse. Nesse momento sublime de confluência da galáxia com o meu ego, sacudido em espasmos, frémitos e relâmpagos, deslizo então, borbulhante, crepitante, ao teclado e esprol... esplo...

- Espoldrinha-se?

- Exacto. Eu tumble in the dust!...

- Mickey Mouse, já pertence ao folclore blogonáutico: semanalmente, verifica-se que nos acessos da quarta-feira contradiz estrepitosamente o que havia profetizado com fragor nos de terça-feira, nos de quinta renega os de quarta e assim sucessivamente. Daí que eu lhe pergunte: enquanto arauto peregrino de novidades de estalo, pretende ser para a “coerência” o equivalente ao que Jorge Lima Barreto foi para a “afinação”? (Relembro que, logo após o 25 de Abril, o músico e crítico musical Lima Barreto saiu-se com aquela descoberta revolucionária que embasbacou meio mundo e pasmou o restante - cito: “a afinação é um conceito pequeno-burguês!”) Concretamente, ó Mickey, para si, a “coerência também é um conceito pequeno-burguês”? Ou será antes o ópio do povo, que é como quem diz, eufemizando, da populaça?

- Além da abstração, a populaça portuguesa não entende a fina ironia, a ironia da boa, aquela que eu e o Pateta, digo o Fy-Fy, fazemos. É uma chatice. Não adianta educá-los. São duma incapacidade atroz para certos alambiques.

- Portanto, a sua incoerência vulgar, na verdade, é uma forma subtil – e superlativa - de ironia – é isso que pretende dizer?

- Repare, é apenas mais uma das facetas delicadas do método Cartes do Mickey Mouse: ao contrário do Descartes, eu não penso. Não, eu show, logo existo. Ou seja, existo, na medida em que shou.

- Esclareça-nos: quando diz “shou”, significa ser à moda de Viseu, ou, simlesmente, dar espectáculo?

- As duas coisas. Eu show e, consequentemente, dou espectáculo. Shou, logo existo, e show, logo exibo-me.

- Um Houdini da evasão lógica e do pensamento automático, portanto. Nunca o convidaram para o circo Chan?

- Não. Mas tenho esperanças. Até me imagino, nos meus cintilantes avatares artísticos... às segundas, quartas e sextas, era Pierrosa Choc, o vidente-contorcionista; nos restantes dias, era Peter Pan-pan, o tarólogo prot do trapézio voodu!...

- Desde quando é que sentiu esse impulso irresistível em se tornar nessa espécie de Professor Karago da blogosfera, com consultório on-line, onde passa a vida a garatujar receitas e a corrigir atestados de óbito e relatórios de autópsia?

- Desde o Carnaval de 2006, pelo menos. Achei que mascarar-me de mulher já não me realizava plenamente. É uma tradição nacional, eu sei, talvez a maior e mais sagrada de todas, longe de mim renegá-la, mas começara a saber-me a pouco. Não era suficientemente histriónica, espalhafatosa, ambígua!

- Foi então por insatisfação (ou tédio) com a máscara de galdéria no Carnaval que decidiu mascarar-se de intelectual católico o resto do ano?

- Bem, de católico apenas às segundas, quartas e sextas; às terças, quintas e sábados, ponho o nariz e óculos à protestante. Ou seja, nos dias pares, detenho a verdade; nos dias ímpares, ministro a justiça. Aos domingos, repouso.

- Mickey Mouse, como poderemos chamar a essa sua fórmula complexa de travestismo religioso?

- Eu próprio hesito na taxonomia. Às vezes sinto-me mais catante que protestólico; outras é o inverso. Umas terceiras é ainda mais confuso: plano num limbo caleidoscópico ora crotestante, ora patólico. Picturo então myself in a boat on a river, with tangerine trees and marmelad skies, e esprol... expol…

- Espoldrinha-se?

- Pois. Isso mesmo (irra, que língua complicada!). E também me inclino mais para a Terceira hipótese.

- Por falar nisso, sabe que o César Augusto Dragão (a quem em tempos, você, Mickey, mascarado de Kalimero, taxou de galifão por chamar pateta ao Pateta), declarou recentemente, sob juramento e invocação, ao Papa Bento XVI e a toda a Curia Romana reunida, que não o considerava, a si, Mickey Mouse, nem catante nem protestólico (ou sequer crotestante ou patólico), mas, pura e simplesmente, um intelectual catastrólico?... Considera isto ofensivo?

- Nem por isso. O Dragão, como de resto já publicamente confessou, tem uma enorme inveja do Pateta, digo Fy-fy. Além disso, é o representante máximo da maledicência desabrida e reiterada, da injúria metódica e do bota-abaixo sistemático que grassam cá na paróquia.

- No entanto, vingou-se...

- Pois vinguei. Mandei-lhe o Gustavo Boca-doce em expedição punitiva!... Ninguém brinca com o Mickey Mouse!...

- O Gustavo Boca-doce é aquele brazuca que fazia annilingus ao Olavo do Carvalho e agora lhe faz rimjobs a si, o Pedro Arrota, não é?

- Esse mesmo. Língua mais suave não existe, seda pura. Mas quando quer é uma boca de destruição maciça. Então, em se tratando de ladrar, não há caravana que resista!...

- Vai daí, no auge duma campanha de alegorias fecais que já estava enfadonha, ele teve aquele brilhante desarrincanço de chamar paneleiro ao Dragão. É como chamar vegetariano ao Conde Drácula. A seguir, para zénite do método delirante, vai chamar-lhe o quê: Judeu?

- Pior que isso!

- Pior? Mas há algo pior e ainda mais inverosímil?

- Sem dúvida: Benfiquista!... Ou cinéfilo!

E, de momento, é tudo, teleleitores. Foi a primeira parte da entrevista com esse grande vulto do nosso culturismo mental, um dos últimos grandes mestres do ridículo e da patacoada. Um dia destes há mais. Agora temos que fazer uma pausa: para ele se espoldrinhar e para eu, a pontapé,lhe sacar umas explicaçõezinhas conceptuais de mera índole futebolística, que é como diria Santo Agostinho: de vera religione.

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O Boca-doce é bom, é
Diz o avô e diz o bebé.

Reino da bosta

A pedido, desço a comentar o cancelamento da última turnée daquela Coisa Jackson.

Parece que a pop está sem rei. Já estava sem rock. Pelo que ,doravante, depreende-se, está sem rei nem rock. Se, por algum louvável capricho da Ceifeira, também esticasse o pernil a Coisa Madonna, seria o verdadeiro três em um: ficava a bosta levedante sem rei, nem rock, nem rainha. Melhor que isso só uma chuva de meteoritos inteligentes: uma que acertasse selectivamente nos concertos de hip-hop e metal (duas formas particularmente ruidosas de excremento). Já agora, não sei se será sonhar muito, rezar mesmo a um grande meteoro genial, todo ele a zunir inspiração: que acertasse em cheio em Hollywood!...

Julgo que, com isto, fica esgotado o assunto, tanto quanto o presunto. Nota final: ao que li por aí, as dívidas da criatura ascenderiam a qualquer coisa como 4o0 milhões (e alguns papalvos interrogavam-se acerca do paradeiro da putativa fortuna da vedeta). Donde não será de excluir a hipótese dos credores, tipos que não fazem plásticas ao nariz mas bem precisavam, terem organizado o óbito como forma de promoção das vendas. Lá terão concluído: "O tipo já não aguenta cinco minutos em palco sem que lhe caia o nariz, o melhor mesmo é matá-lo. A publicidade fica de borla e as vendas sobem à estratosfera!"